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Curso Afro-Pará

EXPOSIÇÃO "ÁFRICA: OLHARES CURIOSOS", Hilton Silva

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Pará lidera número de mortes de negros na região Norte, diz Ipea

Pesquisa situa o estado em 4º lugar de homicídios em ranking nacional.
Representante da OAB critica conduta de agentes públicos e polícia.



Luana Laboissiere* Do G1 PA



Jorge Farias OAB Pará (Foto: Fernando Araújo/O Liberal) 

Presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB-Pará fala que o racismo permanece como herança que ainda as situa em um contexto de marginalidade e violência (Foto: Fernando Araújo/O Liberal)
O Pará é o estado da região Norte com o maior número de homicídios de negros por mortes violentas. É o que diz um estudo do Ipea, divulgado na última terça, véspera do Dia da Consciência Negra, celebrado nesta quarta-feira (20). De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, são registradas 55,1 mortes de negros para cada grupo de 100 mil habitantes, ante 15,5 mortes de não negros.
O estado ocupa o quarto lugar no ranking da violência contra negros no Brasil. O Instituto utilizou como referência o sistema de informações sobre mortalidade do Ministério da Saúde (MS) e o censo demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Os dados sobre o alto índice de mortalidade entre negros demonstram o que o movimento negro vem falando há décadas: existe na cultura, no imaginário dos agentes públicos, da polícia, que negro andando à noite é suspeito”, sustenta Jorge Farias, presidente da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB/PA).
A pessoa ainda ouviu dos PMs: 'Tu vais cantar de galo lá na África, negão'"
Jorge Farias

Racismo
Para Farias, a Lei Áurea foi o primeiro avanço no reconhecimento de direitos das pessoas negras no Brasil, mas o racismo permanece como herança que ainda as situa em um contexto de marginalidade e violência. “Já faz 124 anos que a Lei Áurea foi instituída, mas a legislação penal precisou tipificar o crime de racismo para fazer valer a lei. Racismo não é apenas impedir o negro de frequentar um local, um restaurante, por exemplo, ter acesso ao emprego, à cultura, à saúde e à educação; é negar cidadania e oportunidades”, complementa o representante da OAB.



O presidente chama a atenção sobre um caso que está acompanhando. “Em junho deste ano, um africano naturalizado brasileiro foi abordado na rua do Maguari, em Ananindeua, por policiais militares porque ele dirigia um veículo sedã, e apenas por esse fato foi considerado suspeito”, comenta. Segundo Farias, a abordagem ocorreu no fim da tarde, e o homem foi conduzido à delegacia, de onde saiu por volta da meia noite após pagar uma fiança de mais de R$ 2 mil. O processo tramita na Promotoria de Justiça de Ananindeua.
“Durante o caminho, ao explicar que tinha emprego, e tentar esclarecer a situação, a pessoa ainda ouviu dos PMs ‘ Tu vais cantar de galo lá na África, negão’”, detalha o advogado, que lembra que crime de racismo pode levar a cumprimento de pena de três a oito anos.
Bruno B.O Rapper (Foto: Divulgação)Bruno B.O fala que o hip hop, ritmo que teve origem em comunidades negras, ensina valores de moradores da periferia (Foto: Arquivo pessoal)
Violência cotidiana
O paraense Bruno Guilherme dos Santos Borda, de 34 anos, conheceu nas ruas da Grande Belém a realidade que a pesquisa reflete. De família pobre, negro, cresceu no bairro da Guanabara, em Ananindeua, na região metropolitana de Belém. Ele relembra que, na adolescência, a música era capaz de transportá-lo para um ambiente melhor. “Ali era uma área muito difícil, perigosa, com grande número de assaltos, de envolvimento de jovens com a criminalidade e vítimas dela. O hip hop me ensinou que a vida podia ser muito melhor que aquilo”, revela.

Aos 14 anos, o adolescente fez as primeiras composições que anos depois sustentariam a carreira musical como Bruno B.O., que em parceria com o DJ Morcegão, produz um som que funde o rap, o rock e o ragga. O talento foi reconhecido pelo Ministério da Cultura (MinC) com o Prêmio Cultura Hip Hop Edição Preto Ghoez, em 2010.
“O hip hop não ensina só uma arte, mas valores de união, paz, respeito, amor, valores universais que foram retirados dos moradores das periferias pelo próprio estado de brutalização que sofrem cotidianamente. Um valor importante, por exemplo, é o de respeito às mulheres, às mães, às companheiras, às irmãs e filhas nossas e dos outros”, explica.
Bruno B.O Rapper (Foto: Arquivo pessoal) 
O rapper traz em suas letras o retrato da vida urbana
marcada pela pobreza e dificuldades
(Foto: Arquivo pessoal)
A base das letras de Bruno é o retrato da vida urbana, marcada pela pobreza, dificuldades, e a esperança na mudança, que ele também exerce quando entra nas salas de aula das unidades responsáveis por adolescentes infratores em Belém, mas dessa vez como o professor, que dá aulas de sociologia aos internos. “O meu alunado é preto e pobre. O adolescente classe média para no DATA (Delegacia de Atendimento ao Adolescente) quando comete infração, mas a coisa não vai adiante” , critica.
Bruno, que atualmente cursa o doutorado em antropologia na Universidade Federal do Pará (UFPA), afirma que é intrincado o universo que conduz às estatísticas que relacionam a negritude, a juventude e a violência no país. “O que se observa é que se coloca uma quadra esportiva no bairro, mas a escola não funciona, não abriga esse jovem. Se quisermos uma perspectiva real de mudança, o esforço tem que ser integrado, de Estado e a sociedade. Mas estamos dispostos a isso?”, questiona o professor.
"A vida é sempre dura/ é a mais pura loucura/ mas pretendo resistir/ defendo a minha postura/ trilhando um caminho do bem dentro do mal (...)", canta nos palcos o MC em “Sempre Pelo Certo”, enquanto, de segunda à sexta, o professor rabisca no quadro branco noções sobre sociedade, ética e inclusão a jovens em busca de um lugar fora das estatísticas de criminalidade.
 
*Com colaboração de Natália Mello.

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